terça-feira, 17 de abril de 2012

Comando Militar responsabiliza Angola por golpe de Estado

O porta-voz do Comando Militar que  tomou quinta-feira o poder na Guiné-Bissau insistiu hoje que foi Angola  quem levou as Forças Armadas guineenses a desencadear o golpe de Estado,  para evitar a morte da cúpula da hierarquia castrense

Numa entrevista telefónica à Rádio de Cabo Verde, Daba Na Wana contou  a versão do Comando Militar sobre o que levou aos acontecimentos da passada  quinta-feira, argumentando que foi Angola quem "violou" o acordado entre  os dois países, ao enviar para a Guiné-Bissau "material de guerra" à revelia  das forças de segurança locais. 

Daba Na Wana defendeu que a cooperação técnico-militar bilateral previa  que Angola prestasse apoio na reforma da Defesa e Segurança da Guiné-Bissau  e que o armamento pesado trazido para a sede da Missang (missão angolana  em Bissau), além de não estar previsto, tinha outros fins. 

O porta-voz dos revoltosos referiu que os "tanques com lagartas, carros  de combate e alguns morteiros para canhão" chegaram inicialmente a Bissau  sem conhecimento das Forças Armadas, que pediram explicações à Missang,  tendo-lhes sido respondido que se destinavam a reforçar o exército guineense. "Tudo começou com um clima de desconfiança, que foi continuado desde  que a Missang começou a transportar para Bissau material de guerra, violando  claramente os acordos assinados entre os dois países no domínio da Defesa  e Segurança. O acordo não incluía o envio de armas", afirmou. 

Daba Na Wana acrescentou que as dúvidas acentuaram-se quando, antes  da primeira volta das eleições presidenciais (18 de abril), "Angola substituiu  o pessoal técnico sénior - pedreiros, carpinteiros e engenheiros da construção  civil, para a reabilitação de casernas - por uma equipa de militares composta  por tropas especiais". 

Após a polémica, acrescentou, Angola acedeu em treinar militares guineenses  com os novos equipamentos, "comprados na África do Sul", uma vez que o exército  local "estava habituado a lidar com material soviético", o que aconteceu  durante um mês, após o que os "meios blindados" seriam entregues as forças  locais. 

O porta-voz do Comando Militar indicou que, depois, as chefias militares  da Missang alegaram que não tinham competência para entregar o material,  remetendo a questão "para os políticos" e foi nessa sequência que se deu  a discussão entre o embaixador de Angola em Bissau e o ministro da Defesa  guineense. "(O ministro da Defesa guineense) chamou o embaixador para lhe dar conta  das preocupações das Forças Armadas e dele próprio. O embaixador ameaçou-o,  chamando-lhe a atenção para as palavras que estava a dizer, porque aquilo  poderia ser considerado uma ofensa para Angola", afirmou Daba Na Wana, na  entrevista à Rádio de Cabo Verde. 

"Depois desse clima de desconfiança, o primeiro-ministro (guineense)  escreveu uma carta secretamente, sem passar pelo Conselho de Ministros ou  pelo Parlamento, a pedir às Nações Unidas para intervir ou a aprovar uma  resolução que permitisse o uso de força ou o envio de militares para um  país que não está em guerra. O portador da carta foi o Ministro das Relações  Exteriores de Angola, George Chicoti", disse. "Não tendo sido o MNE guineense o portador da carta, das duas uma: ou  a carta foi escrita a pedido de Angola ou foi o Governo angolano que fez  a carta e pediu ao Governo de Bissau apenas para assinar" um documento a  pedir à ONU a aprovação de uma resolução que legitimasse o envio da força,  "a integrar por Angola, Brasil, Gana e outros países da sub-região". 

"Perante o cenário, não podíamos ficar de braços cruzados à espera de  uma força expedicionária do exterior para um país que não está em guerra",  concluiu o porta-voz do Comando Militar guineense. 

Lusa

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